Capítulo 9 | Trilhas do Coração |

“Pensei que estivesse sonhando, quando acordei a primeira vez e a vi aqui depois de todo esse tempo.
Mas parece que não, é mesmo verdade, está aqui.”
“Sim eu estou.”
“E vai ficar?”
“Pelo período que quiser, eu ficarei aqui a seu lado, e participarei de seu atendimento.”
“Eu estou perguntando se vai ficar comigo, na minha vida desta vez.
Não apenas no meu atendimento.”
“Minha vida está aqui em Oglopogos.
Construí tudo que eu tenho, infelizmente eu não posso voltar para trás agora, depois de todos esses anos.
Mas eu gostaria de poder, gostaria muito de poder.”
“Então, vamos encerrar aqui, nossa historia?
Aqui no hospital, quando eu sair, eu não te verei de novo?”
“Eu sempre estarei aqui Winston, e se quiser pode vir me visitar.
Eu não pretendo ir a lugar nem um, e se quiser participar da minha vida, da vida do Wesley, você sempre será bem vindo, sabe disso.”
“É me parece que sim.”
Um momento de silêncio e então ele volta a falar.
“Danielle, onde está Danielle?”
“Sua noiva está lá fora, ela não arredou os pés daqui.
Me parece que ela te ama muito, seu pai gosta dela, o pai dela está lá também.”
“Eles gostam do dinheiro um do outro.
E Danielle, isso não é amor, é medo, é culpa, mas não é amor.”
“Culpa?”
“Sim culpa pelo que aconteceu.
Nós não estamos mais juntos, terminamos.
No dia do tiro eu inclusive cheguei a tirar a aliança do dedo, e disse que ela fizesse o mesmo.”
“E o que ela fez? Porque ela ainda está com a aliança.”
“Ela me mandou pra cá.”
“Como assim, eu não entendi.”
“Beatrice, Danielle me fez chegar ao hospital, ela me baleou no peito.”

A revelação estarrecedora me congela, e então fico sem ação ou reação.
A porta do quarto se abre e Dra. Melissa entra.
“Como se sente Winston?”
“Operado Dra.”, fala ele sorrindo.
Melissa sorri de volta e diz que ele não perde o bom humor, e que isso era bom.
Ele quer saber como estavam os exames, e diz que odeia ficar no hospital, que precisava fazer algo e sair dali logo.
Melissa fala que o entende, e que por isso levou para ele uma coisa, e o entrega o celular.
“Tenho certeza de que um jogo de xadrez vai te animar.
Victoria e os outros estão preocupados, não param de me mandar mensagem.”
“São sempre muito cortês, que sorte tive em os conhecer.”
“Sorte foi a nossa em conhecê-lo.
Mas agora estou vendo que está em excelente companhia, então irei deixa-lo, se cuide e fique bem.”

Melissa deixa o quarto e Heller olha o celular.
Responde as mensagens no grupo de xadrez que haviam o deixado.
Eu começo a sorrir ao ver ele empolgado numa partida Online.
“Algumas coisas nunca mudam.
Seu entusiasmo em jogar é uma delas.
E vejo que se adaptou bem a nova tecnologia.”
“Com a pandemia os campeonatos presenciais foram cancelados, nós tivemos que nos adaptar.
Então foi esse o jeito que encontramos de fazer o tempo passar.
Eu tenho comorbidades, e por causa disso tive que passar a maior parte do isolamento em casa, sozinho.
As vezes via Danielle mas as vezes.
Victoria e os outros eram a minha maior companhia.
E claro que Danielle não gostava disso nem um pouco.
Ela sempre foi possessiva, controladora.
Se tentasse dizer isso a ela era a mesma coisa que acionar a terceira guerra mundial.”
Começo a sorrir para ele, que me devolve o sorriso.
“Eu tive alguém mais ou menos assim na minha vida.
Com a diferença que ela não te agrediu.”
“Ela fez pior.
Ela quase me matou.
Claro que não se compara a uma agressão feminina, mas, em termos legais, tentativa de homicídio é mais grave que agressão não?”
“É, tem razão, tem toda razão.”

O soro acaba, fecho a veia e me levanto para ir trocar o frasco.
No posto de enfermagem, preparo o frasco novo, e então noto quando Danielle entra no quarto.
Fico apreensiva e não sei o que fazer, se vou ou não vou.
Porque se fosse poderia arriscar uma discussão, se não fosse e ela tentasse de novo mata-lo.

“O que está fazendo aqui?”
“Eu vim te ver, saber como estava.
Eu insisti muito lá embaixo e me disseram que poderia subir 5 minutos.
Tinha que ver e falar com você.”
“Não temos nada que falar Danielle.”
“Claro que temos, o casamento, nossos planos.”
“Tão bem quanto eu, sabe que não tem casamento, não tem planos.
Nós terminamos a exatos 2 dias Danielle.
No dia que atirou em mim e me trouxe para cá.”
“Então você lembra?”
“Sim Danielle, eu lembro.
Claro que eu lembro que tentou me matar.”

A porta do quarto se abre e eu entro, por via das dúvidas e com medo do que ela pudesse fazer com Winston.
“Temos que por outro soro Heller.”
“Tudo bem Beatrice, minha ex-noiva já estava saindo.”
“Eu não”, Fala Danielle parada por Winston.
“Tchau Danielle, pode voltar para casa tranquila e viver a sua vida em paz.
E esta aliança, não tem porque usa-la, acabou.”