Capítulo 5 | Trilhas do coração |

Muitas coisas então estão na minha cabeça.
Será que deveria ligar para Winston, conta-lo sobre o bebê?
O que fazer se seu pai viesse contudo para cima de mim?
Eu fui embora e depois de semanas, voltar grávida, Winston não iria me achar uma vadia, que estava tentando lhe aplicar um golpe?
Eram tantas incertezas já que não tinha certeza de nada.

Decido depois de muito pensar, que no final de semana visitaria meus pais.
Contaria a eles sobre a gestação, e logo então, decidiria o que fazer de lá.
Convido Clarinha para me acompanhar na viagem e vamos.
Por um infortúnio do destino, assim que desembarcamos em minha frente estava ele.
Tony Heller, pai de Winston.
Claro que ele me reconheceu na hora por mais que tentasse disfarçar e me esconder por trás de Clara.
E claro, ele não ia perder a oportunidade de me ameaçar, espezinhar, em público.
Espera eu tomar uma certa distância do salão de desembarque, segue-nos pelo estacionamento e então sinto uma mão tocar meus cabelos e puxar a minha cabeça com tudo para trás.
“O que é isto, está me machucando.”
Falo, seguido de um “Solte ela, estás louco?”
De Clara.
“Eu disse que não viesse mais aqui sua vadia, o que veio fazer na cidade?”
“Eu vim visitar meus pais, eles moram aqui, eu não posso passar o resto da vida longe deles.”
“Ah, mas vai passar.
Quando eu te disse para ir embora, era para ir embora mesmo, nunca mais voltar.”
“Sr. não fale assim com ela, não está vendo que ela está apavorada?”
E então, Heller me olha de cima embaixo, percebe o inevitável.

“Não vá me dizer que está prenha?
Voltou de sei lá onde com uma barriga para meu filho assumir?
Muita petulância mesmo gente, achar que ia entrar pra minha família com um filho.
Se toque, você tem 5 anos mais que meu filho, tem idade pra ser sua irmã.
Não sua namorada.
Além disso uma enfermeira? O que é que uma enfermeira ia dar de estabilidade para ele?
Por acaso ia ficar em casa, cuidando dos machucados dos filhos, enquanto ele se arrebentaria num escritório?
Esse era o teu plano desde o começo né?
Lamento mas conheço o seu tipo, e não vou permitir.
Vai embarcar no próximo voo para o inferno de onde veio, e vai agora.
Faço questão de te embarcar, vou comprar e pagar a maldita passagem.
E se quiser ver seus pais, combine que eles vão onde estiver te visitar.
Porque se eu te ver de novo aqui, se eu te ver de novo.
Se chegar perto do meu filho com essa barriga, eu juro, vai se arrepender.”
“Pare Sr. pare”, fala Clara.
Mas ele que ainda segurava forte meu braço, parecia nem aí.
“Não te deixarei arruinar a vida do meu filho.
O deixar mal falado por aí.
Não vou te deixar destruir o que ele pode construir, aparecendo com uma criança que nem sabemos se é dele mesmo.
Vai saber com quantos se deitou não é mesmo?
Vá embora Beatrice, vá embora.
Porque se ficar, se Winston souber ou sonhar desta criança, todo mundo vai sofrer.
Eu desaparecerei com você pra sempre, com esse bastardo, e se precisar, sumo com Winston também.”

O pavor tomou conta de mim quando ele me soltou, e eu queria só fugir, ir embora dali.
Corri para o portão de embarque, comprei uma passagem para casa.
Mesmo Clara me dizendo que não podia fazer isso, eu voltei.
Passei mal de nervoso e pânico a viagem toda, e tive que guardar todos aqueles sentimentos para mim.
Achei de verdade que nunca mais fosse feliz um dia.
Ou que nunca fosse esquecer o que fizeram comigo.

Aos poucos eu tentava retomar minha rotina, e nunca disse mais sobre a gravidez.
Estagiando, logo consegui um emprego fixo como enfermeira.
Terminei as especializações e as aulas probatórias do curso, me formei.
Meus pais foram me visitar em Oglopogos, na formatura.
E estavam muito orgulhosos de mim.
Não tive coragem de estragar a noite e o orgulho deles, contando que eu era uma vergonha, que tinha engravidado.

Na semana seguinte após minha formatura, comecei a trabalhar em um pequeno hospital.
Era enfermeira obstétrica, cômico se não fosse trágico.
Clarinha quis ir para a UTI, e lá fez sua carreira.
Mas depois de um tempo, também mudou de ares para a pediatria, de onde nunca mais saiu.
Sempre fomos unidas e fizemos tudo juntas.
E ela estava sempre querendo me apresentar para alguém.
E um dia veio a calhar.

Conheci um amigo da Clara que também era enfermeiro, ficamos por alguns meses.
Mas não deu muito certo.
Então ela me apresentou um médico, Tomas.
Quando tudo começou a mudar de novo.
Rapidamente Tomas e eu, fomos nos relacionando e o meu passado, nunca pareceu ser um problema.
Parecia que ele era compreensivo, amoroso, dedicado.
Tomas então, me pediu em casamento, e eu disse a ele que se fosse para ser, teria que fazer direito.
Me lembrei, não podia voltar para casa, então tive que levar meus pais a Oglopogos.
Contei a eles pelo telefone, que havia conhecido um médico, e que queríamos jantar.
E então no jantar, eu então sou pedida em casamento e não penso no passado triste, que buscava esquecer.
Mas que eu sempre via me assombrar, ao ver os olhos de meu filho.