Capítulo 4 | Trilhas do Coração |

Enquanto estava em casa, sabendo que no dia seguinte não ia trabalhar.
Que talvez o curso de enfermagem fosse obrigada a desistir, e que eu nem compreendia direito porque tanto ódio do Sr. Heller.
Ele nem me conhecia para me tratar daquele jeito, ou será que ele já sabia do que rolou entre mim e o filho.
Uma pergunta que não saía da minha cabeça, enquanto minha mãe me vê aos prantos e se senta.
Era comum que conversássemos sobre tudo, mas há algumas semanas essas conversas foram interrompidas.
“Minha filha essas lágrimas, é o Cimas de novo?”
“Não, não é mamãe.
Eu aceitei o que aconteceu e creio que tivesse sido melhor agora do que no futuro, com filhos e todo o resto.”
“Então, o que te aflige?”
“Sinto medo, insegurança, sinto que o mundo está me sulgando”, revelo chorando mais.
Minha mãe então me abraça, e me diz que Deus não nos dá um fardo maior do que o que podemos suportar.
E de verdade, o que quer que tenha ocorrido, na hora certa Deus vai agir.
Pode levar o tempo que for, mas Deus age, ele sempre age.
Porque as coisas são no tempo dele, não no nosso.

Conto para ela, que conheci alguém no clube de Xadrez.
Winston Heller, um xadrista muito promissor.
Jovem, alguns anos mais novo que eu, mas isso não era o importante.
O importante era o seu carinho, o seu caráter, a forma como me tratava como igual.
Diferente de seu pai.

O Sr. Heller foi ao clube e fez me despedirem naquela noite, e esse era o meu choro.
Me obrigou a sair do emprego e da cidade, ou em troca ia arruinar minha carreira antes que começasse.
Não tenho como concluir agora os estudos e especializações que eu queria, e eu me tornei uma enfermeira para não exercer.
Não sei o que pensar nem o que estou dizendo.
Meu coração está destroçado, e em uma noite, o entreguei por completo a Winston, e nunca mais falamos sobre isso.

“Minha filha, vamos resolver tudo, não quero que se preocupe, apenas feche seus olhos e durma”.
Me fala minha mãe, com um beijo de boa noite.

Ao amanhecer de um novo dia, meu pai me esperava na sala.
Segurava uma pasta nas mãos com dinheiro.
Não tive coragem de perguntar onde que ele conseguiu, porque eu sei que não tínhamos aquilo.
Mas ele pede que eu pegue, e que dê um tempo em Oglopogos.
Não era um adeus mas um até logo, até que as coisas esfriassem.
Ele já tinha conversado com um amigo, e a filha dele ia me acolher em casa.
Clara era uma boa moça e era enfermeira também, acabado de se formar.
Então, não precisava me preocupar com nada, ela ia me arranjar um estágio, até estar pronta, na clínica em que trabalhava.
Minha vida foi montada e desenhada, só se esquecendo de saber, se eu queria ir, ou o que estava sentindo com tudo aquilo.
Mas as palavras de Heller, pesam na minha mente todas as noites.
E então eu dou adeus a minha casa, migrando para a capital.

Em Oglopogos, sou bem recebida por Clarinha, e logo estamos amigas.
Conto para ela do meu passado, Cimas, Winston, e o que eu tive que fazer.
Clarinha me diz que eu tinha que esperar o momento certo, nossa historia ainda não acabou ela tinha certeza.

Mais semanas passam, e então algo me mostra que eu estou mudada.
De repente as roupas não cabem mais, meus seios ganham outro formato, uma barriga que antes não tinha.
Clarinha percebe meus enjoos matinais, e pergunta.
“Amiga está grávida?”
Aquela pergunta que eu fiz internamente para mim, me apavora tanto.
Tenho medo da resposta, mas Clarinha saí, vai a farmácia e volta com o teste.
“Anda vem, faz xixi aqui, e vamos tirar essa dúvida.
Não podemos esperar 9 meses e de repente sair uma criança daí de dentro sem qualquer planejamento!”

O teste positivo era um choque, um tapa na minha cara.
Era Clarinha me dizendo.
Eu te disse, a historia ainda não acabou.