Capítulo 3 | Trilhas do Coração |

Há 15 anos atrás, era uma enfermeira recém-formada.
Tinham poucas oportunidades na cidade, e eu sonhava em fazer minha carreira.
De repente estar num grande hospital como este hoje.
Quem é que não tem sonhos quando faz uma carreira não é?

Mas então, para pagar o curso de enfermagem eu entro no clube de xadrez, e começo a trabalhar lá nas horas vagas.
E em um dos primeiros dias, surge Winston Heller.
Daquele jeito único, gentil, especial.
Um nato cavalheiro como poucos ali não haviam.
Meus olhos param nos seus mas eu conheço bem o meu lugar.
Mas, Winston parece não se importar.
Você nunca se importou, tratava a todos igual e com cortesia.

Na sua primeira noite como jogador profissional, a maior surra de xadrez que aquele clube já viu.
Era só sucesso e era só festa.
Eu queria participar daquela festa, eu queria me embriagar naquela noite e esquecer de vez, tudo que me amedrontava.
Havia acabado de passar por uma experiência traumática.
Meus sonhos de menininha fúteis, estavam destruídos.
E me convidou para estar com você e seus amigos, naquela festa.
Nós bebemos e eu achei que tomei vinho demais.
Meus lábios ficaram adormecidos e de repente estávamos nós, a dançar e nos beijar na pista.
E pela alta madrugada, estávamos em algum lugar do clube, fazendo amor.
De uma forma como nunca antes tinha feito com ninguém, ou como voltaria a fazer um dia.
Era único e forte tudo aquilo.

No dia seguinte eu tinha certeza, ia passar.
Quando o efeito do álcool acabasse, eu ia lembrar pouco e você, Winston Heller, claro que ia esquecer.
Era apenas mais uma peguete, daqueles lindos olhos e aquele lindo esportista.

No dia seguinte nem um telefonema ou nem uma aparição no clube, como esperei.
Estava esquecida.
Mas as pessoas começaram a comentar, pelo jeito como eu olhava suas fotos no mural.
Que era a boba apaixonada por Winston Heller.
A empregadinha gostando do menino mais novo, querendo dar o golpe do baú na família.
Aqueles comentários eram dolorosos, mas os ouvia.
Até que 5 dias mais tarde, você voltou.
Descobri porque estava ausente, um problema de saúde.
Fiquei imaginando se teria sido o vinho, eu não sabia o que te falar ou como falar.
Mas de forma tão gentil, como sempre foi, Winston veio a mim.
Conversamos e até tomamos uma limonada suíça juntos.
Era seu suco favorito, como eu sabia das vezes que o servi no clube.
Mas naquela tarde, era eu sentada contigo.

Seu tio passou por nós, me mostrou ele de longe mas ele não foi a mesa.
Mais tarde eu fui chamada na sala da diretoria.
E então, o Sr. Heller já estava lá me esperando.
Ele queria saber o que estava acontecendo conosco, se eram verdade os boatos.
Eu sorri e disse a ele, que não desse bola aos boatos.
Quaisquer que fossem eles, deveria confiar em seu filho.
Conversei com Winston e ele era um bom garoto, eu disse.
E ele me disse assim.
“Exatamente por Winston ser um bom garoto, não vou permitir que estrague a vida dele.
Então a situação vai se desenhar da seguinte forma.
Eu vou te fazer um cheque aqui agora, só me dizer o valor.
Vai se mudar da cidade, vai para o mais longe que pude
r, se quiser ir pra outro país, problema seu.
Só não quero te ver mais nesse clube amanhã quando eu estiver aqui.
Então vai, diga seu valor que eu vou pagar.
E meu filho nunca mais vai te ver, não vai dizer a ele que vai embora, simplesmente desapareça.”
“Sr. desculpe, eu não estou a venda, eu não quero dinheiro.”
“Ótimo, mas isso não muda nada.
Não quer meu dinheiro, não te dou.
Mas vai desaparecer daqui da cidade e da minha vista.
Não quero uma como você, perto do meu filho.
Se olhe no espelho garota.
E se ponha no seu lugar.
E não se esqueça que eu sou influente, muito influente.
Eu posso destruir a sua carreira.
Antes mesmo dela começar.
Minha esposa é membro do Conselho Nacional de Enfermagem.
Imagina só se eu dissesse por engano, que uma das novas e futuras enfermeiras se engraça com jovens, o que isso não ia fazer com sua carreira em?”
As ameaças não pararam por ali, e foram brutais.
Só escutava, segurando as lágrimas, e quando ele terminou eu disse que havia entendido o recado.
Me afastei da sala, e disse que voltaria para o trabalho.
Mas o Presidente do clube me chama.
“Beatrice, não ouviu.
Está despedida, tem que sair agora.”

Eu nem pude voltar ou terminar meu turno.
Chovia e eu chorava enquanto caminhava a pé para casa.
Pensando, refletindo, sofrendo.