Capítulo 2 | Trilhas do Coração |

“Você aqui, de novo?
Não era então uma miragem ou fruto do meu pensamento quando cheguei ferido.
Era verdade, está aqui mesmo?”
Me pergunta Winston.

Segurando na sua mão e ainda tremendo, lhe respondo que sim, estava ali.
Eu era enfermeira e estava trabalhando no Simedcal, há 3 anos.
Mas nunca tinha tido a oportunidade de encontra-lo.
Winston diz que nunca foi aquele hospital, e que mora longe.
Onde ele mora é acostumado a ir em outro centro de saúde e tem seus médicos de confiança.
A propósito quer saber, onde eles estariam.
Eu lhe explico que ele foi ferido a bala, e que ele não poderia ser transferido ainda.
Ele me diz que ele se lembra pouco do que aconteceu, do ferimento.
Algumas imagens lhe vem em flashs, e eu digo que ele espere. Na hora certa as lembranças viriam.

Ele diz que o destino foi mesmo muito engraçado, seria cômico não trágico.
Eu segurava sua mão, depois de deixa-lo sozinho.
Eu choro, eu não posso o dizer nada naquele instante, me afasto.
Me encontro com Clarinha na saída e digo a ela que ele acordou, e que ele se lembra da nossa historia.
Só estava um pouco confuso quanto ao porque, foi baleado antes.

De repente, passam 3 pessoas por nós, uma eu reconheço bem.
Quando me olha o Sr. Heller parece ter visto um fantasma.
“Não acredito, é você mesma aqui?”
“Sim sou eu Sr. Heller, trabalho aqui.
Fui a enfermeira que socorreu seu filho quando ele deu entrada.
Agora felizmente ele foi operado e passa bem, com quadro estável.
Mas o médico dele vai te por a inteira situação de tudo.”
“Certo, eu trouxe os médicos dele também, vamos cuidar de tudo Beatrice.”
Percebo que ele sabia ainda o meu nome, pudera, como ia esquecer.
Eu também nunca esqueceria o nome dele, o seu rosto, o que ele fez.

Passado uns momentos, me dirijo a sala de Piter.
Eu bato na porta e ele diz que posso entrar, e falo com ele.
“Dr. eu queria que soubesse que eu estou aqui para fazer o meu trabalho.
Mas eu não gostaria que o Sr. se deixasse influenciar por nada que não fosse verdade.”
“Não entendo o que está falando Beatrice?” Me fala ele.
“Há muito tempo atrás eu fui vítima de uma situação muito desconfortável, que não gostaria que se repetisse enquanto o Sr. Winston Heller estivesse aqui.
Posso ficar longe dele se quiser, se me determinar.
Mas antes de dar ouvidos a família dele, fale comigo qualquer coisa que fique sabendo.”
“Aqui, estamos para tratar pacientes, se não há nem um problema em fazer isso Beatrice, não to nem aí para o que dirão.
A menos que tenha sido você que atirou nele.”
“Não, não, de jeito nem um!” Falo sorrindo.
“Afinal Dr. o que aconteceu com ele, que foi baleado?”
“Isso ainda não sei, mas creio não demora estar nos jornais.
Eles estão lá na porta a Alicia me disse.”
“Sim sim, estão mesmo, plantão frenético de jornalistas, não arredam o pé.”

Depois de conversarmos um pouco, deixo a sala de Piter, volto para a enfermaria e acaba o meu plantão.
Antes de ir para casa, passo pela UTI.
Olho pelo vidro Winston, que estava com os olhos abertos e me faz um sinal.
Eu entro, e ele segura minha mão.
“Eu não consigo dormir, fique aqui um pouco, pode ser?”
E diante aquele pedido eu não posso me recusar, eu me sento e digo que não iria a lugar algum.

No salão de esperas, o Sr. Heller estava com a esposa, madrasta de Winston.
Sua mãe era morta já.
E havia uma mulher com eles, me passava mensagem Clarinha a contar.
Eles conversavam com uma outra mulher, médica, que me parecia ser a responsável pelos tratamentos médicos dele.
E que disse que ia ver como ele estava.
Até que a porta se abre, e ela me vê ali.
“Enfermeira está tudo bem aqui?”
“Sim Dra. está.”
“Dra. eu pedi que ela ficasse, a Beatrice e eu, nós nos conhecemos há um bom tempo.
15 anos, exatamente, eu a vi, e depois ficamos sem nos ver um bom tempo até hoje.
Se isso não é destino, me diz Melissa, o que seria?”
E a médica me olha em silêncio.
“Seus pais estão lá aflitos, e a Danielle também.
Ela está preocupada, muito preocupada.
Tem certeza de que não se lembra do que houve lá?”
“Sim Melissa eu tenho, nada vem a minha mente, só umas imagens borradas.”
“Então espere sem pressa, na hora certa, cada coisa a seu tempo, vamos esperar.”

Winston pede que eu fique um pouco mais quando Melissa saí, e então me faz a pergunta que eu não achei que ia um dia ter a oportunidade de responder.
“Por que?”
“Desculpe, eu não entendi.”
“Entendeu sim Beatrice, não se faça de desentendida.
Eu quero saber, por que foi embora daquele jeito, mudou o telefone sumiu da cidade, da minha vida, até hoje.
O que houve naquele dia?”