Capítulo 6 | Reflexos do Luar |

Me visto rapidamente e então aquela enfermeira passa comigo pelos corredores.
Ela me leva por um longo corredor até que saímos pelos fundos da clínica, e então ela me põe dentro de seu carro.
Ela me entrega a chave e diz que tinha o endereço dela no GPS, que era para eu dirigir até lá, entrar pra dentro e não sair pra nada.
A noite ela ia pra casa e me encontrava lá, a casa estava sozinha e ninguém ia chegar antes dela.
Eu poderia comer o que quisesse, mas agora eu tinha que ir.

Ligo o carro e então começo a dirigir, vou embora.
Na clínica o médico pergunta por mim, mas ninguém sabe.
A enfermeira que me ajudou, diz que viu quando eu sai correndo da sala.
Ele vai a Sheila e diz que sua amiga foi embora.
Ela pergunta como assim embora, e fica assustada.
Ele diz que não conseguiu fazer o procedimento, então ainda estava grávida.
Sheila fica irritada e tenta me ligar, eu tinha dado o número para ela.
Mas claro que ela não consegue, afinal tinham destruído meu celular.
Nisso o dia passa, e na casa da enfermeira me reencontro com ela.
Ela pergunta de onde eu sou, e por qual motivo eu estava ali.
Conto a minha historia embora agora já tivesse um certo receio de confiar nas pessoas.
Olha o que Sheila quase fez comigo.
Então, ela pega um dinheiro, me dá e diz que não era muito mas era o que ela tinha ali.
Podia comprar uma passagem de ônibus e voltar para casa.
Esquecer aquele inferno e Pablo, ser mãe e cuidar do meu filho com dignidade.
Não precisava de macho pra fazer isso, eu era plenamente capaz.
Fugir do hospital e ficar ali a esperando, eram provas mais que suficientes disso.

Então pego o ônibus, eu volto para casa.
Eu chego em silêncio no dia seguinte, meus pais querem saber o que aconteceu.
Minha mãe diz que estavam preocupados, porque nem meu telefone nem de Pablo, atendiam.
Eu me sento no sofá, e começo a chorar.
Conto para eles que Pablo me enganou, todo esse tempo.
Meu pai, antiquado, diz que Pablo tinha que se casar comigo, ele me desonrou e eu estava grávida.
Mas eu digo a ele, Pablo já era casado.

Meu pai se levanta da sala e caminha para seu quarto, sem se quer olhar para trás.
Minha mãe me diz que tudo ia ficar bem, minha família não ia me abandonar.
Ainda tinha receio das reações de meu pai, que nada disse.

No dia seguinte no café da manhã, minha mãe me preparou uma gemada.
E disse que fortaleceria eu depois de tudo que passei, e que tinha que me alimentar bem.
Meu pai de novo, nada me disse.
Ele saiu de casa, ficou por quase todo o dia fora e eu querendo saber o que ele estava fazendo.
Será que ia tirar alguma satisfação com Pablo, será que ia falar algo para a família dele, será que ele ia voltar e me bater ou pior, me expulsar de casa.
Não era de culpa-lo se fizesse isso, eu era a sua maior vergonha.

Perto das 6 da tarde, depois de passar o dia todo fora, o meu pai voltou.
Ele estava trazendo inúmeras sacolas nas mãos, tinham tantas coisas que ele mal conseguia carregar.
Ele chegou, e foi despejando em cima do sofá.
Roupas de bebê, fraldas descartáveis em pacote, mamadeira, chupeta, lenços umedecidos, toalha de boca, de rosto, de banho para bordar.
Cobertor, jogo de lençóis para berço.
Aquilo me deixa emocionada e minha mãe então pergunta.
“Meu velho o que é isso tudo, onde vamos por?”
“Conceição, não vamos deixar meu neto ou minha neta desamparada.
A Luna foi uma destrambelhada que caiu no conto daquele sem vergonha do Pablo, mas ela também foi vítima.
Se ele não é homem pra cuidar do filho que ele fez, eu sou macho o suficiente pra dar conta da minha família.
E eu sei quem é a filha que eu criei, e que ela vai fazer de tudo pra cuidar desse bebê.
E a gente tá aqui com ela, nunca vamos deixa-la.”
Meu pai me abraça, como nunca me abraçou, e eu me sinto protegida como nunca me senti antes.
Uma nova era se firmava e se iniciava a partir dali.
“Já comprei o berço e a cômoda também, vão entregar amanhã, daí a gente ajeita isso tudo.”

Fico impressionada, porque meu pai reagiu de uma maneira como jamais pensei.
Ao mesmo tempo me sentia tão amparada, era uma alegria estar em casa de volta.