Capítulo 3 | Reflexos do Luar |

Era noite na fria Curitiba, e eu estava destroçada na calçada.
O luar batia em meu rosto e o seu reflexo, estava no meu olhar agora sombrio, triste, magoado e ferido.
Ainda tive tempo de ver, quando Pablo, Andreia e a filha do casal, felizes passaram de carro por mim ao saírem da casa.
Eles não me viram porque eu estava ali, atirada na calçada em um canto qualquer, como o bom lixo que eles achavam que eu deveria ser.
Não tinha como comunicar-me com ninguém, afinal estava sem celular.
Eu não tinha como sair dali, porque eu simplesmente não tinha forças para que me levantasse.
O que eu ia fazer da minha vida, eu pensava.

De repente minha barriga começa a doer forte, e eu começo a ficar tão enjoada.
Será que aquilo, todo aquele episódio teria me proporcionado uma ulcera?
Sinceramente não sabia, mas de uma coisa eu tinha certeza.
A minha vida jamais voltaria a ser como era antes, e eu, nossa, eu não sei por onde começar a sair daquele buraco.

A medida que a madrugada dentro avançava, Pablo não voltava para casa, mais frio ficava na rua.
O reflexo de meu olhar, ainda no luar, era a triste melodia que me tocava agora.
De repente um carro preto passa, e para olha para mim vai embora.
Mas alguns minutos depois ele volta.
Ao parar outra vez eu penso duas coisas.
Alguém que iria me fazer mal, ou Pablo mandando alguém me machucar.
Aquela altura eu não duvidaria que ele fosse capaz de fazer qualquer coisa.
E eu estava tão sem forças, que fosse quem fosse que estivesse dentro do veículo, não teria chances nem uma de sair dali.

A porta se abre e então uma bela moça dele desce.
Vestia preto, um vestido longo, coberto, os cabelos estavam para o meio das costas e também eram pretos, lisos em cima, enrolado nas pontas no final.
O seu corpo era muito bonito e seu rosto, mais parecia de uma boneca.
Olhou para mim no chão com pena, com ternura.
Não me viu como um pedaço de carne, atirado ali por Pablo e sua família.

“Menina o que está fazendo aí, pelo amor de Deus, é muito perigoso estar aqui agora!”
“Ah! Moça, eu estou aqui e não tenho forças para sair.
Eu só quero morrer, é o que eu preciso, é o melhor.”
“O que aconteceu, por favor vem comigo, se levante daí.”

A bela dona, bem vestida, nos trinques e nas joias finas, se abaixa do meu lado.
E pega a minha mão, e me segura para que eu pudesse me levantar.
E pela primeira vez, eu me sentia gente de novo.
Alguém teve compaixão por mim pela minha dor, sem saber o motivo dela.
Sem me julgar, xingar, menosprezar.
Me pegou como um ser humano, me pois dentro do seu carro no banco da frente.
Se sentou no banco do motorista.
“Me diga, onde que é a sua casa?”
“Moça eu não to nem perto da minha casa.
Moro no norte, e eu to bem longe de lá.”
“Mas o que aconteceu? Por que estava atirada na calçada, e o que está fazendo aqui?”
Pergunta-me com a voz doce e serena.