Risco eminente – Os cuidados que deficientes visuais precisam ter nas promessas de tratamentos milagrosos

Por Kromnws Vision
09/10/2021

Marina Fonceca tem 28 anos de idade.
Há 8 anos ela teve um problema neurológico e por conta disso perdeu a visão.
Teve que readaptar toda a vida e inclusive, abandonar a faculdade de enfermagem, seu sonho.
A sua vida parou e ela precisou ter que recomeçar.
Durante muito tempo Marina conta que ficou em depressão, e não saía de seu quarto nem queria ter contato com outras pessoas.

Mas, aos poucos ela foi se abrindo ao mundo e as possibilidades.
Aos poucos, ela foi conhecendo o universo deficiente visual e o que os invisuais poderiam fazer.
Sua vida e sua rotina foi se adaptando e ela começou a fazer cursos, se especializar na informática.
De repente, uma luz no fim do túnel.
Pelo menos foi o que ela pensou, quando o relato de uma outra deficiente visual que conheceu num grupo de Whatsapp a convenceu que poderia ter uma chance.
Um tratamento para os olhos que poderia lhe devolver a visão.

Marina ficou muito animada e foi para Goiânia, onde realizou exames e passou com 3 médicos diferentes.
Eles marcaram para ela uma cirurgia que iria a devolver a visão.
Marina ficou imensamente feliz e contou para seus amigos que logo não seria mais deficiente visual, estava ciente que retomaria a vida e os planos de ser enfermeira e ajudar
outras pessoas.
No dia marcado, ela fez a sua cirurgia.
Inclusive pagou pelo tratamento particular antes e depois do procedimento.
Para fazer isso, entrou em dívidas e fez um empréstimo.

Mas a frustração veio depois.
Após a cirurgia ser realizada Marina ficou ainda sem a visão.
Os médicos informaram a ela que teve um descolamento na retina, e que isso acabou complicando a sua situação.
Ao em vez de uma cirurgia milagrosa, Marina conseguiu piorar sua situação, aumentou a pressão do olho, e precisou substituí-lo por uma prótese de vidro.
O que foi mais caro, gerou mais gastos, para que se libertasse da dor.

6 meses mais tarde, ela ainda tenta compreender o que foi que deu errado, e não consegue.
Mas agora sabe que será deficiente visual para sempre, e que nada pode mudar essa condição.

Rafael, é outra pessoa que assim como Marina, acreditou.
Sua família inclusive chegou a fazer uma vaquinha, e levantar R$ 60 Mil para que ele fizesse um tratamento em São Paulo.
Esperavam devolver a visão, que ele perdeu aos 18 anos após um acidente.
Seu sonho, era poder conhecer o rosto dos filhos e da mulher.
Que ele conheceu já sem enxergar, e com quem é casado há 4 anos.
Mas, a frustração veio após a operação.
Nada que pudesse o devolver a visão, outro erro e outro trauma, impediram Rafael de enxergar de novo.

Médicos especialistas em oftalmologia, explicam que não é incomum, que as pessoas cheguem nos seus consultórios com essa expectativa.
A de enxergar de novo.
Muitos até, falam que querem fazer planos e ignoram as orientações que são passadas, quanto a certos tipos de procedimentos.
Um transplante de córnea por exemplo, pode dar a visão para alguém.
Mas antes de se realizar tal processo, é preciso que o deficiente visual seja preparado.
Há muitas variantes numa cirurgia desse porte, e muitas coisas que a pessoa tem que saber.
Entre elas, as chances reais de que o procedimento não funcione.
Não é porque a pessoa está fazendo, que vai 100% de certeza enxergar.
Mesmo porque, cada organismo reage de um modo as cirurgias e especialmente em transplantes, explica Larissa Geovana, especialista em Oftalmologia.

A médica diz, que sempre avalia muito bem caso a caso, antes de indicar um transplante.
Ela não é contra, desde que os pacientes entendam a cirurgia e os riscos.
Marcelo Prieto, médico do Hospital das Clínicas de São Paulo, é categórico ao afirmar.
O Brasil é um dos países que mais tem córneas disponíveis para transplante.
Mas também, é um dos que mais tem grau de rejeição do órgão.
Isso porque, muitas vezes os procedimentos acontecem de maneira inadequada, e sem o preparo devido do deficiente.

Outro problema é que, nem todos os invisuais são candidatos a esta, ou a qualquer outro tipo de cirurgia que vise devolver a visão.
Não existe um tratamento milagroso, existe ciência, e o que ela pode e não pode protagonizar.

A Kromnws Vision, fez um levantamento em 20 diferentes centros de oftalmologia no Brasil.
Que prometem cirurgias que devolveriam a visão a invisuais.
Em pelo menos 6 deles, a cirurgia é tratada como milagrosa, nada poderia impedir que desse errado.
O que induz o paciente ao erro de achar que vai ficar tudo bem, explica Dra. Larissa.
O que não é verdade.

A Sociedade Brasileira de Oftalmologia alerta.
É preciso uma séria conscientização das pessoas sobre os tratamentos oftálmicos para garantir seu sucesso.
Muitos médicos agem de má fé, e muitas pessoas acabam enganadas pelos procedimentos milagrosos, sem sucesso.
Médicos bons e ruins, existem em todo lugar, por isso é preciso ficar atento.

Reportagem de Vanessa Rezende