5º capítulo | Outro Lado |

Depois de passar meses na escola de aprendizados espirituais, aprender mais sobre a evolução e o Celestial, ao mesmo tempo sobre as historias da humanidade.
Eu fui apresentada naquela manhã a lista de pessoas.
Todas as pessoas com quem eu tive algum tipo de ligação no passado, seja na vida que eu tive, ou em outras vidas.
E que estavam aptas a me receber como pais.
Eu tinha um prazo de 7 dias, para acompanha-los, e escolher qual deles que eu gostaria de ter como meus genitores.

Era uma tarefa nada fácil, porque eu sempre vi os meus pais como pais.
Eu não imaginava outras pessoas para chamar assim.
Mas em cada vida, temos um pai e uma mãe, são raras as pessoas que conseguem ter os mesmos, isso depende de uma série de fatores.
Mas se eu pudesse escolher de novo, sempre escolheria os mesmos pais.
Por que?
Eles foram tão bons comigo, cuidaram de mim na minha doença e eu sentia que ainda me amavam.
Me amavam tanto que as vezes a noite, eu escutava choros na minha cabeça como se fossem a minha mãe.
Mesmo depois de tanto tempo.
E eu fui escutando esses choros cada vez mais altos, naquele dia, em que estava escolhendo um novo casal para me ter como filha.
Parecia errado fazer aquilo, deixar meus pais para trás.
Mas ao mesmo tempo era algo que eu tinha que fazer, precisava fazer.

Na noite fria, o som do choro aumentava, tanto que eu comecei a sentir algo que jamais senti.
Uma sensação de frio, de medo, parecia que estava tendo uma crise de pânico.
Me lembro de levantar do quarto, ir a sala do prédio, mas não importava.
Onde eu fosse o som da voz de minha mãe chorando, ecoava.
Parecia que eu estava viva, e ela era um fantasma na minha cabeça me perturbando.
O oposto do que dizem na Terra, quando falam que as pessoas que morrem é que perturbam os vivos.
Isso é uma grande confusão que em outro momento posso explicar.
Mas eu tinha que falar com alguém, eu precisava de ajuda.
Foi ficando tão desesperador, que comecei a suar frio, pensava não ser mais possível isso acontecer, mas aconteceu.
Senti como se eu tivesse um coração batendo em mim, palpitações, medos.
Um desespero foi dominando e tudo que eu queria era ver e estar com a minha mãe.
Saí caminhando pelas ruas celestiais e era algo impulsional, eu não controlava mais meus instintos.
E eu comecei a tremer, tremer, tremer sem parar.
A crise de choro que ouvia em minha mãe, agora invadia a minha alma.
Estava parada diante de uma fonte, no centro da cidade, desabando em lágrimas assim como mãe estava na Terra.
Pelo menos, assim como eu estava ouvindo na minha cabeça.

Aquilo era tão assustador, aterrorizante, não passava.
Eu comecei a gritar.
“Socorro, socorro, o que está acontecendo comigo.
Alguém me ajude, que porra é essa?”
As palavras fugiam do meu controle e eu nem sabia o que era certo ou errado dizer.
Ninguém vinha ao meu encontro e eu estava cada vez mais mergulhada num abismo sem fim.
E de repente eu só via um lugar escuro, só escuro, nada de luz, nada de sons, nada de nada.
“Que merda, alguém me ajuda sair daqui, eu não quero viver nessa tortura!”
Eu gritava, pensava que alguém fosse me escutar.
Até que eu disse finalmente.
“Deus! O meu Deus!
Será que o Senhor pode por favor sair do seu castelo lindo, descer aqui, e me tirar dessa merda.
Pelo que for mais sagrado eu preciso de ti senhor, me escuta!”

E então caí no sono profundo depois disso.
Não lembro mais do que aconteceu.
Só sei que foi assim.
Um tempo depois eu acordei, dentro de um lugar fechado.
Um quarto azul, com uma maca azul, e eu estava coberta com um lençol azul.
Era tudo azul mas um azul bem clarinho como se fosse um azul bebê.
O quarto ainda estava um pouco frio, como se fosse um ar condicionado de banco.
Mas claro que no céu, não tem ar condicionado né, é apenas uma sensação.
Por incrível que pareça agora eu não ouvia mais a voz chorosa de minha mãe.
E a porta do quarto se abriu.
“Hellen oi, que bom que acordou e que parece melhor.”
“Onde eu estou, o que foi que aconteceu, quem é você?”
Perguntei para o homem que entrou, que claro, vestia uma calça azul, uma camisa azul, e um jaleco, acreditem, azul!
Só não sei se o sapato era azul, porque não conseguia ver seus pés, mas posso quase afirmar que deveria ser.
Parece que eu entrei num mundo azul, será que se olhasse no espelho minha cara também seria azul?
Eu pensei, e logo comecei a sorrir.
“Está bem melhor, até sorrindo.
A propósito deixa eu me apresentar para você.
Eu sou Dr. Ezequias.
E eu estou aqui na UTI.”
“UTI?
Mas eu to no hospital?
Tem algo errado, eu tava bem, eu estava escolhendo novos pais na área de reencarnação.”
“Sim sim, calma.
Eu vou te explicar o que aconteceu e você vai compreender, fique calma por favor.”
“Certo Dr. então vamos lá”, falo me sentando agora.

“Na Terra, deixamos entes queridos que nos amam tanto, que eles choram a nossa ausência.
As vezes esse choro é tão intenso que acontece o que os seres humanos chamam de depressão.
Ou uma crise psicótica.
Um processo muito complexo de ser entendido mas que eles não sabem, afetam muito vocês aqui em cima.
O surto deles lá, é transferido através do choro, para vocês aqui.
O que quase te enlouqueceu, foi um episódio momentâneo do sofrimento de sua mãe.
Ela guardou tanto tempo, mas as últimas semanas foram intensas para ela.
Tanto que, ela não suportava mais sua falta e desabou a chorar.
Tudo para ela não fez mais sentido, porque a filha dela, que ela tanto amou, morreu.
Então querida Hellen, aconteceu isso com você.
Foi afetada pelo sofrimento excessivo de sua mãe, porque ela não compreende, nunca foi explicado a ela, que isso te faz mal.
E na sua crise, teve que ser trazida para cá.
Até que esteja pronta, vai precisar ficar aqui de novo.
Seu processo de reincarne foi suspenso, e vai passar um tempinho aqui.
Até que sua mãe se equilibre, não pode sair, não pode ver ninguém nem falar com ninguém.
Será mantida isolada no quarto azul.
Onde seu espírito será tratado.”

“Meu Deus, quanto sofrimento eu trouxe a ela.”
“Não é sua culpa, a culpa é dela mesma querida.
Mas infelizmente você está pagando, por ela não aceitar sua morte.
E isso é mais comum do que se pensa por aqui.”
“Dr. não há nada que eu possa fazer para ajuda-la?
Para que ela compreenda que eu estou bem, e que ela possa não mais fazer isso?”
“Sim, pode ajudar ela.
Pode orar para que ela compreenda essa situação, e para que você seja forte para enfrentar isso.
Essa foi a primeira crise e foi muito forte, mas outras podem vir.
Por isso fica aqui.
Se estiver no Celestial, lá fora, isso pode atrapalhar você e o equilíbrio dos outros espíritos.
Por isso isolamos pessoas quando acontece isso, para que se recuperem e não sejam riscos para ninguém, nem para si mesmas.”
“Eu gostaria muito de poder falar com ela, se eu falasse talvez ela aceite!”
“Essa ideia é uma ideia excelente.
Mas eu não sei se seria possível.
Me deixe ver com nossos superiores, o que podemos fazer.
Talvez possa psicografar alguma coisa.”
“Psicografar?”
“Escrever uma mensagem daqui, enviar para um irmão espiritual que vai leva-la a um médium na Terra.
Pessoas que podem se comunicar conosco, espíritos.
E esse Médium, poderia levar essa mensagem até a sua mãe, para trazer paz a seu coração.”
“Nesse caso Dr. por favor fale, eu quero fazer a psicografia.”