2º capítulo | Outro Lado |

Tudo aquilo parecia tão estranho para mim, mas era hora de reconhecer.
1. O céu e o inferno existe, e que bom que eu fui pro céu, mesmo nunca sendo tão religiosa.
2. Há vida após a morte, apesar dessa afirmação ser contraditória, quando chegamos do outro lado não só dormimos.
Há o que aprender, há o que fazer, e eu estava me adaptando e conhecendo tudo isso.

Nos primeiros dias tudo é questão de adaptação.
No hospital, você fica num quarto sozinha, como se fosse um quarto de hospital mesmo.
Há uma maca em que ficamos deitadas, mas com um colchão e um travesseiro confortáveis.
Há uma janela que podemos abrir, e ver por ela, tudo lá fora.
É lindo, enxergar dessas alturas.
Não vemos a Terra pela janela, vemos apenas aqui mesmo o que há de fora do hospital.
Mas não temos contato com ninguém.
Dentro do quarto, existem uma mesinha, onde posso escrever meu diário espiritual.
E uma coisa que parece uma TV.
Quando ligamos aparece na sua tela, diversos quadradinhos. A medida que deslisa seu dedo, 3 deles para o lado, vai mudando de página como se fosse a tela de um celular, e
aparecem mais quadradinhos de fotos.
São fotos de pessoas na Terra com quem teve contato, e que foram de alguma forma ligadas a você.
É possível ver essas pessoas, o que estão fazendo e falando, clicando na foto.
A imagem fica melhor e maior, e você assiste como se fosse um filme, e em tempo real.

Mas, para quem está pensando besteira, nem vem.
Não dá para ver ninguém em momentos inoportunos.
Não vamos ver ninguém sem roupa, ninguém no banho, ninguém fazendo sexo.
Essas coisas são parte da vida privada das pessoas e ninguém tem que ver isso ou nada a ver com isso.
É por isso que quando a pessoa está fazendo algo impróprio de outro ver, a imagem fica fora do ar quando clica na foto,
tente mais tarde, aparece escrito, risos.

Eu quis ver a minha família naquele dia, minha mãe, meu pai,
ver como as coisas estavam na minha ausência.
A minha mãe ainda sofria muito, ascendia velas para que minha alma fosse iluminada e tivesse um bom lugar.
Manteve meu quarto como eu deixei e não tirou nada de lá.
Passava horas de seu dia, deitada na minha cama e dizia que assim, se sentia perto de mim.
Era a maneira dela lhe dar com o luto.

Meu pai estava trabalhando a maior parte do tempo.
Não é que ele não sentisse minha falta, é que essa era a forma dele lhe dar com a situação.
E também né gente, ninguém pode parar sua vida porque uma pessoa morreu.
Quem morreu fui eu, eles estão vivos.
A vida segue, as coisas seguem, as pessoas na Terra tem que comer, beber, pagar contas.

Aliás, aqui a gente não come, não bebe.
Não precisamos disso viu.
Quando nós chegamos nós recebemos fluídos dos cuidadores do hospital,
espécie de enfermeiros.
Eles nos trazem um copinho com algo semelhante a água.
Bebemos aquilo para melhorar.
A gente bebe de acordo com a prescrição médica.
Por isso um médico nos visita todos os dias pela manhã, antes do sol raiar, para saber, a quantidade de fluídos que precisamos ao longo do dia e de quanto em quanto tempo.

Os fluídos são entregues conforme necessidade, são remédio que purificam nosso espírito e nos adaptam.
Substituem as sensações de fome e cansaço, e quando dormimos, recarregamos nossa energia.
Sim, nós dormimos, sempre no período da noite.
E aqui, tudo é dividido por alas.

Os prédios hospitalares tem 10 andares, e os 2 últimos são reservados para pessoas em grave situação.
A ala mais crítica do hospital, que para entenderem é como se fosse uma UTI.
Os outros 8, estão cheio de pessoas, pacientes, que estão em processo de adaptação e cura ao chegarem da Terra.
Nos primeiros 7 dias nós podemos andar por nosso andar, se estivermos bem.
Se aceitarmos a morte tranquilamente.
Se vermos outro espírito no corredor, podemos conversar.
Mas não entramos no quarto de ninguém, e não conversamos se não conversam com a gente.
Não podemos ir nos outros andares.
Só vamos, a partir do 8º dia.
Mas só nos liberados e sempre com um cuidador.
Passear sozinha aqui, só quando fizer 31 dias que eu cheguei, e desde que eu esteja bem e equilibrada para isso.
De qualquer forma só caminhamos nos 8 andares,
de jeito nem um, podemos entrar na UTI, vamos chamar assim, os 2 andares restante.

A área que eu estou, é tranquila.
A maioria das pessoas são jovens, e vitimados pela mesma doença que eu, o câncer.
Nas nossas conversas compartilhamos, os momentos da dor, da angústia,
que agora são substituídos por uma plena paz.
Nós sabemos que o sofrimento acabou, e que as dores acabam com isso.
Sentimos saudades de casa, mas como dizem lá, estamos num lugar muito melhor agora, e sem sofrer, sem dor, o que é mais importante.

O Reino Celestial é formado da seguinte forma.
São 105 colônias, o mesmo que países.
E cada uma dessas colônias, tem 55 províncias o mesmo que cidades.
Cada uma dessas cidades, tem seus prédios e casas, onde as pessoas ficam quando saem do hospital.
E tem também os hospitais.
Cada cidade tem uma quantidade deles mas todos são iguais, com 10 andares cada distribuídos do mesmo formato e tamanho.

Deus.
Deus fica no centro das colônias. num palácio enorme o maior prédio todos os moradores das colônias sabem que ele está ali.
O prédio de Deus, seu Palácio Celestial, é o maior prédio, não existe nada maior.
São 21 andares ao todo, em que Deus compartilha com seus anjos e santos.
Mas Deus fica, somente no 21º.
Não saí de lá nunca, ele enxerga lá de cima todos nós aqui, e aqueles que estão na Terra.
Tudo que ele precisa, dizem que ele tem lá.
Nunca vamos o ver aqui em baixo, assim como vocês na Terra, nunca vão o ver pessoalmente.
Só seus intermediários.
Mas aqui, tem anjos, guardiões, que já viram e falaram com Deus.
Quando ele precisa falar com alguém, você é chamado, de sua Colônia é levado para o centro, onde fala com ele, você sobe até o seu andar e o espera, e ele vem na sala de
reuniões para te ver.
Imagino que seja uma experiência incrível.
Ao mesmo tempo assustadora.
Já pensou se Deus fala algo pra você que fez de errado.
Poxa tomar bronca do pai é foda, agora imagina tomar bronca do pai do Céu.
Deus me livre disso!
Com todo respeito a ele, claro, mas não quero broncas não.

E voltando a minha realidade no meu hospital,
aqui o tempo também passa. Mas depende muito da forma como você o encara, para saber se é rápido ou devagar.
As pessoas que estão bem, como eu, e que podem andar, são levadas para a sala de reuniões.
Um grande auditório onde aprendemos e ouvimos as palestras.
As regras de convivência do Celestial,
o que podemos ou não fazer no hospital.
E que não devemos perturbar o descanso alheio.
Ah, e pessoas que não acreditavam ou não tinham estudo religioso, passam por ensinamentos de evolução.
Aprendemos coisas que antes achávamos que não existiam, e tudo é muito novo.
É como uma escola, em que cada dia aprende uma matéria nova,
e é muito bom aprender, eu confesso.
Te dá uma outra perspectiva de universo.

Para os pacientes que estão adormecidos, porque existe uma série de razões que podem os deixar assim,
os médicos e cuidadores dispensam tratamentos especiais conforme sua necessidade.
Eles também recebem fluídos, mas aí, injetáveis como se estivessem a tomar soro.
Tá pensando que se livra de agulhas e fio ao chegar aqui?
Livra não, se não tiver preparado ou se alguém lá em baixo te jogar no fundo do poço, eu conto mais sobre isso depois,
você tem que ficar dormindo e recebendo esses cuidados.
Mas tem uma coisa boa,
pode ficar tranquilo, a diferença desse hospital pro da Terra, é que você não vai morrer.
Afinal já tá morto mesmo, não tem como morrer duas vezes né?
Ao menos eu acho que não, quem sabe não aprendo algo de novo amanhã.